13-01-2020

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sexta, 02 maio 2014 00:05

A lei do mercado dos DJs

Mas afinal, existe alguma "lei do mercado" que influencie a carreira dos DJ's? Claro que sim. 
No meu último artigo de opinião, escrevi um pouco sobre isso mas não aprofundei este assunto que muitos dos novos DJ's ainda não compreenderam. 
Muitos reclamam por "falta de oportunidades". Oportunidades? Será que colocando um DJ num determinado evento/actuação irá alterar em definitivo a sua carreira? A resposta é NÃO. 
 
A "lei do mercado" que eu falo, não é mais do que a aplicação do termo "Oferta VS Procura" num serviço que é fornecido (serviço de entretenimento). 
Quando existem mais DJ's do que locais ou eventos que necessitam desse serviço, quando a concorrência é mais que muita e numa altura em que a profissão foi "banalizada" devido às facilidades em ser DJ que foram trazidas pela tecnologia, ninguém pode dizer que uma actuação (leia-se oportunidades) vai fazer a diferença e colocar alguém num patamar de relevo. 
Hoje foste tu contratado mas amanhã já há outro para ser contratado. 
 
Um factor que influencia as actuações e onde existem críticas por parte dos DJ's da "velha guarda" ou daqueles mais ligados ao "House" é o tradicional termo "mãos no ar". 
Sinceramente, alguém ainda quer ir assistir à actuação de um DJ que não levanta a cabeça, não olha para ninguém e onde ninguém vê o que ele está a fazer? 
Poderão dizer que a música fala por si... ok. Posso concordar, mas então tirem o "homem" dali e metam um set gravado porque estar a olhar para uma cabine onde estar lá alguém ou não estar, é igual, mais vale meter uma jukebox (isto se o importante for a música). 
 
Não quero dizer com isto que os DJ's terão de fazer "palhaçadas" ou estar sempre aos saltos, mas temos que "exigir" que demonstrem que estão a sentir a música e que transmitam (corporalmente) esse sentimento para o público que pagou para os ver (porque se for só para ouvir, ouvem em casa no Soundcloud). 
 

Infelizmente, assim que um "artista" começa a ter alguma projecção e um elevado número de actuações, pensa logo que o motivo é unicamente ele ser melhor que os outros (...)

Uma outra situação que influencia o mercado é o número de actuações dos DJ's - é sem dúvida alguma, se são representados por alguém ou se têm agente de marcações. 
 
Infelizmente, assim que um "artista" começa a ter alguma projecção e um elevado número de actuações, pensa logo que o motivo é unicamente ele ser melhor que os outros ou que a "sua música ou técnica" é superior aos demais "colegas de trabalho". 
 
Regra geral, esquecem-se que só têm esse elevado número de actuações ou são reconhecidos no mercado porque houve alguém que marcou as referidas actuações ou os promoveu convenientemente para que as possam realizar (solicitações/pedidos de actuação).
Como manager e booker que sou, não faço milagres (tal como qualquer outro colega meu). O que "nós" fazemos, não é mais do que fazer aquilo que um DJ não faz e devido a estarmos inseridos no mercado, é normal que o conhecimento que temos dele seja superior ao de alguém que a sua função não é a mesma que a nossa. O acordo principal que se deve obter é o de que um manager/booker não "mete", nem produz música e um DJ/artista não faz management, nem marca datas. 
 
Quanto à questão monetária entre agentes/agências e artistas, tenho uma opinião muito própria (apesar de também eu não a fazer na maioria dos casos): Se um DJ/Produtor fica com os dividendos da sua produção musical (regra geral) então porque é que quando faz uma actuação, tem de ficar com 70% ou 80% do cachet por 1h00/2h00 de trabalho?
 
Será que sabem quantas horas é que o seu representante teve de trabalhar para ele ter essa actuação ou quanto é que investiu (tempo e dinheiro) para que a actuação fosse solicitada/agendada? Será justo?
É verdade que o agente/agência precisa do produto (leia-se artista) para poder "vender", mas também é verdade que o artista sem ser representado, terá de fazer ele o trabalho do agente e certamente ficará muito mais tempo na "prateleira" (como produto que é). 

Raros são os casos em que a mudança de representante deu bom resultado e, tal como tu, ninguém trabalha de borla ou faz investimentos para perder (...)

 
Como referi anteriormente, nenhum agente/agência faz milagres e se não tiver bons artistas, também não conseguirá fazer alguma coisa. Devido a essa situação é que as tais "oportunidades" não são dadas a quem ainda não tem "valor de mercado" porque não existe o retorno devido, relativamente ao trabalho que um agente ou booker tem. 
 
Nos dias que correm, existem poucas soluções para os artistas. Ou assumem um "casamento" com um agente/agência que irá investir em vocês e no caso de quererem mais tarde o "divórcio", vão ter de pagar pelo trabalho e investimento que foi feito, ou então não são agenciados e trabalham nas duas vertentes e assumem o investimento de tempo e dinheiro (não será certamente a mesma coisa nem obter os mesmos resultados). 
 
Se fores artista (DJ, produtor, Mc, musico, etc.) e estiveres ligado a algum agente ou agência (ou se fores convidado para ser agenciado), nunca te esqueças que a opção foi feita entre duas partes. Caso queiras quebrar essa ligação tenta sempre que seja de uma forma amigável e com os motivos bem claros para que possam chegar a um entendimento, nunca esquecendo que "não se deve cuspir no prato onde comeu". Raros são os casos em que a mudança de representante deu bom resultado e, tal como tu, ninguém trabalha de borla ou faz investimentos para perder onde não tenha de ser devidamente compensado. 
 
A decisão de ser agenciado tem de partir de duas partes (tal como num casamento) mas ninguém obriga ninguém a estar "casado" se não estiver contente com a decisão. No entanto, quando alguém quebra um compromisso, não pode ficar com tudo o que foi construído a dois. "Artistas" há muitos e nunca te julgues melhor que os teus colegas, em especial se o trabalho não foi "só teu". 
 
Nenhum agente ou agência consegue nada "sem ti" mas tu podes ser substituível. Quem não pode ser substituído é quem paga (clientes), quem te promove e apoia (parceiros) e quem te dá visibilidade. Ninguém (como eu) faz milagres e qualquer agente/agência sabe que sozinho nada consegue e muito menos faz com que "tu" (DJ) consigas entrar nesta "lei do mercado". 
 
Afinal existe ou não uma "lei do mercado para os DJ's"?
Sim... existe. E acredites ou não, é exactamente a mesma que para outro produto qualquer. 
Existem "Lobys"? Claro que sim. 
Basta ter qualidade? Claro que não. 
Vais lá chegar sozinho e com o teu trabalho? Nem em sonhos. 
 
Ninguém consegue nada sozinho e enquanto não perceberem que ser DJ ou artista é algo que nada mais é do que um serviço/produto e é regido pelas leis de mercado normais, dificilmente conseguirão que alguém "compre" o que querem "vender".

 

Ricardo Silva
DWM Management
Publicado em Ricardo Silva
domingo, 17 setembro 2017 19:54

A máquina atrás do artista

Da minha objectiva este é um tema que já foi em certos aspectos mencionado, mas nunca abordado na sua plenitude. Mediante o meu ponto de vista singular esta é uma questão muito importante numa carreira artística, independentemente do género musical, pois para além de todo o trabalho efetuado pelo artista, é não menos importante o papel de quem o trabalha em conjunto, divulga e impulsiona, originando consequentemente todo o sucesso e fruto de um trabalho de equipa.
 
Numa era em que as tecnologias assumem cada vez mais um papel fundamental na divulgação do trabalho desenvolvido, neste caso por um profissional no ramo da música, não podemos de forma alguma descurar por exemplo quem faz a gestão de calendário (booker), "management" ou "advise" artístico, criação e elaboração de conteúdos, assim como quem se responsabiliza pela devida atualização de algumas das mais importantes redes sociais como o Facebook, Instagram ou Twitter.
 
Estes cargos ou responsabilidades, como queiram chamar, geram tempo livre para alguém como eu poder continuar a criar com a "cabeça livre" de todas estas preocupações "cibernéticas" e simplesmente focar-se na criação e atuações ao vivo. Obviamente que a maioria destas questões finais anteriormente deliberadas, são provenientes da minha palavra e aprovação final, contudo isso não coloca em causa a importância da "máquina" que trabalha comigo.
 
Faço parte de uma agência (Next Bookings), onde felizmente sinto todas as posições desde o "Manager" ao "Booker", passando pelos artistas gráficos (Feel Creations-Atelier Multimédia) até à contabilidade em perfeita harmonia, até nos dias mais difíceis… sim, porque nem sempre é tudo tão simples como parece.
 
Uma vez li um artigo em destaque numa revista mundialmente conceituada e dedicada ao ramo da eletrónica, onde mencionavam que um DJ atualmente tinha de ser: Relações Publicas, "Booking Agent", Designer, Programador Web, Profissional das Redes Sociais, Herói de Merchandising, etc… pode parecer algo exagerado, de facto até concordo… mas não se tivermos uma boa "máquina".
 
Resumidamente, se reunirmos os profissionais indicados de cada área específica e necessária na nossa equipa, aliados obviamente, ao nosso talento individual enquanto artistas, o resultado final será visível com sucesso e satisfação.

Miss Sheila
DJ
www.facebook.com/djmisssheilapt
Publicado em Miss Sheila
terça, 09 agosto 2016 23:26

Música feita em Portugal

É de mim, ou este é um dos (últimos) anos que mais música portuguesa se ouve nas rádios e mais artistas portugueses se vêm em festivais? Era uma pergunta retórica, não é de mim, é mesmo verdade, felizmente. 
Seja música cantada em português, artistas que cantam em português ou música feita e cantada por portugueses mas cantadas em outras línguas. Não me faz grande diferença a língua em que a música é cantada, para ser sincero - nem podia, sendo eu uma pessoa que faz música cantada em Inglês - o que me interessa é que cada vez mais se ouve música feita por portugueses.

Ouve-se muita música feita por portugueses nas rádios nacionais que nada fica a dever aos artistas internacionais.

 
Acredito que a música portuguesa, na sua generalidade, está a mudar e a passar uma boa fase. Desde o house à música pop, passando pelo fado. Este verão já tive a oportunidade de estar em diversos eventos onde a música portuguesa era o foco principal dos cartazes e fiquei admirado com as milhares de pessoas que se deslocaram para ver os artistas portugueses a actuar. Desde os mais novos aos mais velhos. 
 
Sem querer mencionar nomes de artistas, é impossível não referenciar a Carminho e a Ana Moura, porque se hoje o fado é ouvido pelos mais jovens, deve-se a toda a criatividade e trabalho que elas e a equipa delas tiveram ao criar um fado, de certa forma, mais contemporâneo, dando uma nova dimensão ao nosso Património Imaterial da Humanidade.
Falar também acerca dos nossos produtores musicais, que estão a subir a fasquia cada vez mais. Ouve-se muita música feita por portugueses nas rádios nacionais que nada fica a dever aos artistas internacionais. O que depois se reflecte nos cartazes dos grandes festivais nacionais, que estão repletos de artistas nacionais, alguns deles como cabeças de cartaz. 
A Música Portuguesa está de boa saúde e recomenda-se!
 
Dan Maarten
Publicado em Daniel Poças
quinta, 03 outubro 2013 19:19

From a paradise called Portugal...

 
Enquanto escrevo estas linhas, entra pela janela, através dos pinheiros que circundam a minha casa, uns belos raios de Sol. Está um fantástico dia de Outono, e parece-me indicado para o assunto que desta vez irei abordar na minha crónica.
Falta a banda sonora, e tal como o título sugere, terá que ser portuguesa. Olho para a prateleira dos CDs e... voilá! "Kaos Totally Mix" de 1995 salta à vista. Nem mais... Play!
 
"Kaos Totally Mix" misturado por DJ Vibe é uma obra de culto da música electrónica nacional. Lançado em 1995, representa o esplendor máximo do que foram os tempos de ouro da música de dança em Portugal. É recheado de temas emblemáticos e condimentado por uma mistura/técnica impressionante, quase mágica de um senhor chamado António Pereira, DJ Vibe. 
 
Pois é sobre estes anos de ouro que quero falar… 
Por meados dos anos 90, no mundo da música de dança, Portugal era considerado um 'paraíso'. Artistas como Underground Sound Of Lisbon (DJ Vibe e Rui da Silva), Urban Dreams (Alex Santos), The Ozone, DJ Jiggy, Kult Of krameria, J. Daniel, DJ Tó Ricciardi, L.L. Project (Luis Leite), A. Paul, DJ ZÉ-Mig-L e tantos outros, davam vida e mostravam que tínhamos um som próprio, único e característico que representava Portugal. Éramos respeitados e acima de tudo, tocados por esse mundo fora. Nesse capítulo, é importante referenciar um nome que proporcionou esse estatuto a este pequeno país. António Cunha!
 
Fundador da empresa Kaos (que a par da edição discográfica, era também empresa de eventos), juntamente com Rui Da Silva e DJ Vibe, foi um incansável lutador, não só na divulgação de talentos, mas também como impulsionador da cena de dança num país que pouco ou nada conhecia dessa vertente. "Raves" míticas, discos míticos, anos de ouro que para sempre estarão associados a este senhor que infelizmente já partiu, e deixou saudades - muitas - de tempos que parece que nos distanciamos a passos largos. Um bem-haja a António Cunha, que descanse em Paz.
 

Sempre fomos talentosos neste aspecto, e dizer que fomos mais na altura, pois as "vitórias" foram maiores, é errado, a diferença está na união que existia, vontade, e um remar numa só direcção.

Distanciamo-nos a passos largos - sim. Pois a realidade dos dias de hoje é bem diferente. E não falo da sonoridade, porque essa, sendo ela de cariz electrónico, é lógico que sofre mudanças, mutações, evoluções. Não é o som actual que estou a pôr em causa, ponho sim, a diferença de atitude, o empenho geral e acima de tudo o que não existe nos dias de hoje, a UNIÃO ARTÍSTICA! Essa força, que faz a força. 
 
Sempre fomos talentosos neste aspecto, e dizer que fomos mais na altura, pois as "vitórias" foram maiores, é errado, a diferença está na união que existia, vontade, e um remar numa só direcção. 
 
A força foi tal, que nas discotecas, como foi citado várias vezes na comunicação social especializada, "(...) tornou-se 'in' dançar um disco de música dança nacional(...)". E era verdade, existia esse orgulho na música de dança portuguesa, esse orgulho em saber que aquela música era nacional e era boa. Patriotismo na música de dança, sim, eu experimentei esse tempo. E que tempo...
 
Hoje estamos distantes do que é nosso, pouco queremos saber, pouco nos preocupamos. E aí, a culpa não é só dos artistas, da pouca união e pouca vontade de seguir um caminho único, visando o sucesso geral e não o propósito de ser o número 1. A culpa é também das rádios e televisão que pouco ou nada apostam em artistas nacionais, que pouco ou nada se preocupam em fazer para termos de deixar de importar e começar a exportar, que é o que lá fora se preocupam em fazer.
 
Hoje a rádio é um jogo de interesses, comandada por algumas empresas de agenciamento que querem vender 'peixe graúdo' internacional e que 'prostituem' artistas nacionais «a torto e a direito» e que só vêm euros. Que saudades tenho daquele dia em 1994, à hora de almoço, dentro da carrinha de trabalho do meu pai, ouvi na Rádio Comercial Underground Sound Of Lisbon - So Get Up... É verdade. Saudades...
 
A união faz a força, e nós poderíamos ser muito mais fortes, até porque já o fomos, mas temos uma mentalidade egocêntrica, queremos ser os maiores 'do nosso bairro'. A nossa geração actual da música de dança, em comparação com a dos 90, faz lembrar as duas últimas gerações da Selecção Nacional de Futebol... A nova tem mais recursos, eles têm mais estilo, são mais bonitos (Ok, alguns), mas a outra, jogava bem mais, tinha um rumo e nenhum queria ser o número 1 - eram unidos!
 
Outros tempos que saudosamente recordamos, portugueses que deixaram o seu nome na história, que muitas vezes não são respeitados nem recordados da maneira que deviam. Portugueses que queriam mais para o seu pobre país, que mesmo atravessando ao longo dos anos as dificuldades que conhecemos, sempre foi de sacrifício para que bens maiores se elevassem, e na história da nossa música de dança, esse "Paradise Called Portugal", teve o seu apogeu nos anos 90. Para quem os viveu, vai rever-se nestas minhas palavras, quem não os viveu, que reflicta, e que comecemos todos de uma vez por todas a remar para um futuro melhor.
 
Saudações musicais.
So Get Up!!!
 
Publicado em Massivedrum
terça, 03 outubro 2017 19:14

Os Deejays e o respeito pela arte...

Num mercado em constante mudança, todos os Deejays (ou aspirantes) deveriam evitar ceder à tentação de apenas acompanhar e imitar tendências já existentes. Uma coisa, como Produtor, é aplicarmos as influências que todos temos na nossa música, e que fomos conquistando ao longo da nossa vida, quer seja à frente da cabine ou atrás, outra é pura e simplesmente tentar copiar o que estará eventualmente na moda do momento apenas porque se parte do princípio que essa será a fórmula para o sucesso, seja lá qual for a sua interpretação. A personalidade de um artista vê-se pela sua capacidade de adaptação ao passar das tendências sem desvirtuar a sua própria identidade, e penso que aqui começam a residir grande parte dos problemas relativos à longevidade da carreira de um Deejay ou Produtor, seja em Portugal ou em qualquer parte do mundo. Talento, perseverança, capacidade de sofrimento, amor à profissão e cada vez mais saber estar atualizado em áreas como como a Promoção, Marketing ou Imagem (estas últimas áreas deixarei para a minha próxima crónica de opinião, até porque a Sheila já se focou, e muito bem, neste tema), são cada vez mais factores fundamentais para se conseguir vingar numa profissão onde até há pouco tempo atrás bastava ser-se conhecido, ter uma cara bonita e levar muitos amigos atrás (sim, em momento algum referi a palavra música). 
 

Passar música para uma pista ou fazer música sozinho num estúdio, não poderá nunca ser resumido apenas ao factor negócio (…)


Acaba por ser um passo mais do que esperado o desaparecimento precoce dos mais variados nomes que chegaram a inundar as nossas pistas de dança de uma maneira vertiginosa mas que chegada a altura de colocar em prática algum dos predicados acima referidos os fizeram desaparecer com a mesma rapidez com que apareceram. Como em tudo na vida o amor à nossa arte é o que sustenta tudo e é preciso realmente ter uma abnegação muito grande para seguir em frente, por muito duros que sejam os obstáculos. Felizmente o nosso mercado está a mudar, a fasquia da qualidade está cada vez a ficar mais exigente e parece-me a mim que as coisas começam a ficar cada vez mais arrumadas nos seus devidos sítios. Passar música para uma pista ou fazer música sozinho num estúdio, não poderá nunca ser resumido apenas ao factor negócio, no fim acabará sempre por ter que vir de dentro aquilo que realmente vai tocar os nossos fãs, críticos, promotores, seguidores ou colegas de trabalho. No caso específico da produção não basta acordar de manhã e pensar que seria giro ser produtor, só porque todos os outros o são e até fica bem no flyer. Tal como na vertente do Deejay, para se ser Produtor musical é preciso ter predicados únicos que não poderemos de forma nenhuma ignorar por pensarmos que um qualquer "sample pack" juntamente com o fácil acesso a um programa de produção nos vai fazer evitar ter que trabalhar e estudar para podermos criar livremente sem limitações.
 

(...) não é por o nosso vizinho nos dizer que até temos jeito para a coisa que vamos pensar que encontrámos a nossa vocação.


Não poderemos nunca encarar tudo isto de uma forma leviana, como em todas as áreas temos seres humanos que têm aptidões para desempenhar o seu trabalho e outros que não, e não é por o nosso vizinho nos dizer que até temos jeito para a coisa que vamos pensar que encontrámos a nossa vocação. Carisma, personalidade e capacidade de integração não são características que possamos fingir, ou as temos ou não, e a consciência desses factores são determinantes para a nossa realização pessoal e acima de tudo para uma arte que cada vez mais precisa de ser respeitada. Seguir esta vida é tudo menos ser-se reconhecido, ter bebidas de borla ou entrar sem esperar na fila dos clubs ou festas da moda, é sim, estar preparado para sacrifícios sociais, pessoais e familiares que muitos de vocês que estão a ler esta crónica saberão do que estou a falar, porque certamente já o viveram. Ser Deejay é ter tudo menos uma vida normal, é ter que sacrificar tudo em prol de uma causa e estar preparado para sofrer as consequências, sendo a nossa grande recompensa a realização de ver quem está à nossa frente levantar os braços e esquecer os seus problemas nem que seja por um par de horas. Eu pessoalmente não gosto muito de pensar em planos muito alargados para a minha carreira, gosto de trabalhar no dia a dia e acima de tudo sentir que o que faço tem um sentido válido para mim, para aqueles que estão próximos de mim e para quem me ouve e segue. Tudo o que vier além disso acaba por ser agradável bónus que tem que saber ser muito bem gerido. Muitas vezes penso que a próxima data poderá muito bem ser a última, que posso estar a fazer a última viagem, a última conversa no carro com o meu agente, a visitar o último hotel e por isso mesmo todos os dias sinto mais força para continuar a desemprenhar a minha função nesta vida, que profissionalmente é sem dúvida nenhuma a música.

Muitas vezes recebo mensagens de pessoas que me perguntam o que devem fazer para serem Produtores, que programa utilizar ou que curso tirar e a todos dou uma resposta que se calhar não gostam de ouvir, que é aprender a tocar um instrumento musical, afinal estão a fazer música e provavelmente o primeiro ano até é chato, mas passados dois ou três até vão começar a achar piada e começar realmente a desfrutar da beleza única que é a linguagem musical. Penso que se calhar essas pessoas acham que é desperdiçar muito tempo, não me parece que seja muito essa a resposta que esperassem ouvir, cada vez recebo menos mensagens dessas... Mas o essencial a retirar deste pequeno exemplo, é que sem esforço e determinação até podemos conquistar pequenas coisas, mas as grandes estão destinadas a quem vê a luz que aparece na altura em que tudo parece negro e acabou, qual sinal que te diz para continuares em frente, porque o resto não interessa, mesmo que tudo em ti te faça questionar os porquês, porque nada parece fazer sentido. O melhor de tudo é que tenho a certeza que muitos de vocês com certeza que percebem o que quero dizer e se identificam com o que aqui escrevi desta vez, e se por acaso não, aconselho vivamente a procurarem outro objectivo de vida. 

Eu tenho a certeza da minha vocação e propósito nesta vida, e tu?
 
Publicado em Carlos Vargas
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